O Descarte dos Cães de Guerra

"Nós buscamos fazer o melhor e levamos pedradas de todo lado".


Assisti no History Channel certa vez um filme sobre o emprego, pelos americanos, de cães na guerra do Vietnã, nos anos 1960 e 1970.  Após vários soldados americanos ficarem aleijados ou perderem suas vidas em armadilhas, ao fazerem patrulhas na selva, passou-se a treinar cães para identificar, pelo faro, minas e outros artefatos que  pudessem significar riscos para as tropas. Estima-se que tenham sido usados mais de dez mil animais. Na verdade, muitos eram até mesmo vira-latas que vagavam na área de operações. Quando os americanos decidiram abandonar o conflito, poucos cães foram repatriados para os Estados Unidos, a maioria foi sacrificada ou abandonada e acabou virando churrasco dos vietcongs.

Na mesma época da Guerra do Vietnã, em plena Guerra Fria, centenas de milhares de brasileiros tomaram as ruas das principais capitais do país solicitando uma intervenção para que não se tornasse uma ditadura comunista nos moldes cubanos. As motivações das solicitações eram diversas, inclusive a ameaça representada pela aproximação de grupos armados com governos comunistas de Cuba e China, a desestabilização social promovida por saques em mercados, ataques terroristas que resultaram em mortes e desmembramentos muitas vezes de transeuntes inocentes, sequestros de diplomatas e de aeronaves e assassinatos diversos. Às FFAA preocupava o estímulo à insubordinação e ao motim nos quartéis.

Após derrotar cerca de trinta organizações subversivas que promoveram atentados como os descritos acima na tentativa de implantar pelas armas uma ditadura comunista com patrocínio externo, em 1979 foi promovida, espontaneamente, pelo último dos presidentes militares a abertura política, acompanhada de uma anistia ”ampla geral e irrestrita”, que visava pacificar o país. A ideia, de viés “kantiano”, seria perdoar tanto os militantes e terroristas que haviam assassinado pessoas com explosões e sequestros quanto os agentes da lei que eventualmente tivessem cometido excessos e desvios de conduta. O objetivo era o de permitir que o país suplantasse esse episódio histórico e pudesse crescer em paz. Assim sendo, retornaram do exílio figuras como Leonel Brizola, José Dirceu, Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rouseff, dentre vários outros militantes, que imediatamente iniciaram sua escalada ao poder. 

Tão logo chegaram à Presidência da República, os ex-militantes iniciaram o processo de esvaziamento do entendimento havido com anistia. Já no Governo FHC, criou-se o sistema de indenizações aos militantes que se diziam torturados - embora nenhuma indenização jamais tenha sido paga a brasileiros mortos ou desfigurados nos ataques terroristas da época. A categoria militar tornou-se uma das mais mal pagas do poder executivo e alvo de críticas e chacotas emanadas dos principais formadores de opinião do país, nomeadamente a imprensa, o meio acadêmico e a classe artística que, em larga medida, haviam sido fortemente aparelhados por movimentos de esquerda. Criou-se o Ministério da Defesa, rebaixando assim o nível, até então ministerial, dos Comandantes Militares, ao mesmo tempo em que se efetuavam maciços cortes nos orçamentos das três Forças Armadas. A distorção se materializou quando perigosos assassinos genocidas como Che Guevara, Lamarca e Marighella passaram a ser apresentados como heróis.

Pelo menos até pouco tempo atrás, os militares foram o saco de pancada da opinião pública brasileira na imprensa e maio acadêmico. Nenhum movimento ou voz significativa se levantou para defender essa categoria. Em novembro de 2011, visando punir apenas os militares, Dilma Rousseff instituiu a mal-denominada "Comissão da Verdade", composta unicamente por ex-militantes de esquerda, cujo objetivo nunca foi o de apurar a verdade e sim o de colocar no banco dos réus apenas os agentes da lei, tendo como “arautos da moralidade” os terroristas de outrora, agora eleitos governadores, presidente ou nomeados ministros; muitos deles atualmente condenados em escândalos de corrupção. Nesse momento, os militares, já com mais de 70 anos de idade, que se viram convocados a comparecer para prestar esclarecimentos viram-se abandonados, não só pela sociedade - que nunca se manifestou em apoio a eles - como também dos militares em função de comando na ocasião, que não os protegeram nessa hora, embora tivessem sempre agido no cumprimento do dever, em defesa do Brasil e em resposta aos clamores dos brasileiros que haviam saído às ruas em massa, no início dos anos 60.  Esses militares, ao se verem assim entregues à própria sorte, sentiram-se como os cães de guerra do Vietnã: descartados e abandonados. 

Embora seja perfeitamente compreensível esse sentimento por parte dos militares que, com o risco de suas próprias vidas, livraram a sociedade brasileira da triste sina de ver o país se tornar uma grande Cuba, recorde-se, em defesa do povo, que este também foi vítima, alvo que foi de forte campanha de propaganda e doutrinação anti-militar perpetrada pelos já citados "formadores de opinião". Note-se, aliás, que tal campanha não ocorreu só no Brasil; ocorreu nos EUA também, sendo a principal responsável pelo repúdio do povo americano às suas Forças Armadas que lutavam no Vietnã. Vale mencionar, também, que não existiam, na ocasião, a internet e as redes sociais, que permitissem aos brasileiros conservadores e patriotas se coordenarem e constatarem que não estavam sozinhos nas suas opiniões de apreço e gratidão aos militares pelo esforço exitosamente realizado. A lavagem cerebral sobre a população foi tão intensa e insidiosa que, até hoje, ao contrário do que ocorre na maioria dos países - onde povos que se sentem acuados correm naturalmente para os quartéis -, os brasileiros, ainda nos dias de hoje, hesitam em fazer isso.

Com o país quebrado pela incompetência e roubalheira da máquina de corrupção instalada pelo PT, começou a ganhar força o movimento intervencionista que há décadas pede intervenção militar. Inicialmente, muito pequeno, formado majoritariamente pelos que viveram o período tenso da década de 60, o movimento foi ganhando voz pelas redes sociais e iniciou campanha de esclarecimento público para o que verdadeiramente aconteceu naquela época. Se por um lado era tarefa lenta e difícil, por chocar-se com décadas de doutrinação em contrário, por outro lado foi aos poucos sendo fortalecida pelo renovado interesse dos mais jovens, que começavam a sofrer as penosas consequências do lento processo de implantação comunista no país. O movimento intervencionista estimulava os mais jovens a conversarem com seus avós, tios, parentes mais idosos que tivessem vivido aquela época e assim, lentamente, eles foram descobrindo a verdade. Em relação a esse movimento, militares mais antigos, muitos na reserva e os que estão atualmente em cargos que teriam possibilidade de alinhar-se com intervencionistas, ainda estão ressentidos com o "descarte" sofrido por gerações anteriores após amenizar-se a turbulência política e parecem preferir, agora, adotar postura mais neutra, deixar que outros vetores se acomodem sozinhos. Conforme salientou o General Mourão, nosso Vice-Presidente, em palestra proferida em 2017, sua geração ficou marcada por esse abandono e pela campanha de difamação sofrida: "Nós buscamos fazer o melhor e levamos pedradas de todo lado".  Contudo, continua o General, "quando lembramos do juramento que fizemos, o nosso compromisso é com a Nação, com a Pátria, independente de sermos aplaudidos ou não. O que interessa é termos a consciência tranquila de termos feito o melhor e de termos buscado, de todas as maneiras, atingir esse objetivo (i.e. defesa da Pátria) ."

Por sua vez, cabe ao povo brasileiro livrar-se de uma vez por todas da pesada doutrinação sofrida e demonstrar seu apoio aos militares, de forma visível, maciça e inequívoca, nas ruas, nos quartéis, o que até agora não aconteceu. O povo e Forças Armadas são um só e que essa união é um das maiores garantias da nossa democracia. 


Fernando Montenegro é paraquedista militar, liderou de tropas de operações especiais, comandou a ocupação do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro e foi Instrutor Chefe do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) em Manaus (AM), dentre outras experiências.

Doutorando em Relações Internacionais na Universidade Autônoma de Lisboa e especialista em segurança, atualmente mora entre o Brasil e Portugal, atuando como professor na pós-graduação da Autônoma Academy de Lisboa, consultor e palestrante Internacional.